Ressincronizador cardíaco: O que é, para quem é indicado?

Você ou alguém da sua família convive com insuficiência cardíaca, sente cansaço até em tarefas simples, e o cardiologista mencionou a possibilidade de um ressincronizador cardíaco. É natural surgir uma mistura de dúvidas e apreensão: é uma cirurgia grande? É igual ao marcapasso? Vai mesmo ajudar?

Neste artigo, explicamos de forma clara o que é a terapia de ressincronização cardíaca, quem pode se beneficiar, como é feito o implante e o que esperar depois dele.

ressicronizado cardiaco

O que é o ressincronizador cardíaco?

O ressincronizador cardíaco é um dispositivo eletrônico implantado sob a pele, logo abaixo da clavícula, que tem como objetivo fazer os dois lados do coração voltarem a contrair de forma coordenada.

Em um coração saudável, o estímulo elétrico percorre o músculo de maneira organizada, e os ventrículos direito e esquerdo se contraem quase ao mesmo tempo. Em algumas pessoas com insuficiência cardíaca, esse estímulo chega atrasado a uma parte do coração, geralmente ao ventrículo esquerdo. O resultado é uma contração “fora de compasso”, chamada dissincronia, que torna o bombeamento de sangue menos eficiente.

O ressincronizador corrige esse atraso enviando pequenos impulsos elétricos para os dois ventrículos no momento certo. Por isso, o tratamento também é conhecido pela sigla TRC (terapia de ressincronização cardíaca) ou, em inglês, CRT.

Qual a diferença entre ressincronizador e marcapasso?

A dúvida é muito comum. De forma simplificada:

  • Marcapasso convencional: trata principalmente o coração que bate devagar demais (bradicardia), usando um ou dois eletrodos.
  • Ressincronizador: tem, em geral, três eletrodos — um no átrio direito, um no ventrículo direito e um que alcança a parede do ventrículo esquerdo por uma veia do coração. Sua função principal é coordenar a contração dos ventrículos.

Existem dois tipos principais de ressincronizador:

  • TRC-P: ressincronizador com função de marcapasso.
  • TRC-D: ressincronizador associado a um cardiodesfibrilador, capaz de identificar e tratar arritmias ventriculares potencialmente graves.

A escolha entre um e outro depende do perfil de cada paciente e é feita pelo arritmologista.

Quem tem indicação de ressincronizador cardíaco?

O ressincronizador não é indicado para toda pessoa com insuficiência cardíaca. Ele se destina a um grupo específico de pacientes, e a indicação segue as diretrizes das sociedades de cardiologia. Em geral, considera-se o implante quando há:

  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, ou seja, o coração bombeia uma quantidade de sangue abaixo do esperado (em geral, fração de ejeção igual ou inferior a 35%);
  • Sintomas persistentes (cansaço, falta de ar, inchaço) mesmo com o tratamento medicamentoso otimizado por tempo adequado;
  • Alterações no eletrocardiograma que indicam atraso na condução elétrica, especialmente o bloqueio de ramo esquerdo com QRS alargado;
  • Pacientes que usam marcapasso com estimulação ventricular muito frequente e que desenvolveram piora da função do coração.

Cada caso é avaliado de forma individual. Fatores como idade, outras doenças, ritmo cardíaco (por exemplo, fibrilação atrial) e preferências do paciente também entram na decisão.

Sintomas que podem levar à investigação

Os sinais que costumam motivar a avaliação são os da própria insuficiência cardíaca:

  • Falta de ar ao fazer esforços ou ao deitar
  • Cansaço desproporcional em atividades do dia a dia
  • Inchaço nas pernas e tornozelos
  • Necessidade de dormir com mais travesseiros
  • Internações repetidas por descompensação cardíaca
  • Palpitações ou episódios de tontura

Esses sintomas não significam, sozinhos, que a pessoa precisa de um ressincronizador. Eles indicam a necessidade de uma avaliação cardiológica cuidadosa.

Como é feita a avaliação antes do implante

Para decidir se o ressincronizador cardíaco é a melhor opção, o cardiologista reúne informações de diferentes exames:

  • Eletrocardiograma: mostra a duração do QRS e se há bloqueio de ramo, dados centrais para a indicação.
  • Ecocardiograma: avalia a fração de ejeção, o tamanho das câmaras cardíacas e o funcionamento das válvulas.
  • Holter 24h: identifica arritmias ao longo do dia, o que ajuda a definir entre TRC-P e TRC-D.
  • Exames laboratoriais e, em alguns casos, ressonância cardíaca ou avaliação da doença coronariana.

A consulta com um arritmologista, especialista em estimulação cardíaca artificial, é importante nessa etapa, porque ele analisa em conjunto os dados elétricos e clínicos para indicar o dispositivo mais adequado.

Como é o implante do ressincronizador?

O implante é um procedimento minimamente invasivo, feito em ambiente hospitalar, com anestesia local e sedação. Não é uma cirurgia de “abrir o peito”.

De forma geral, o passo a passo é:

  1. É feita uma pequena incisão abaixo da clavícula.
  2. Os eletrodos são conduzidos por uma veia até o coração, com auxílio de raio-X (fluoroscopia).
  3. O eletrodo do ventrículo esquerdo é posicionado por uma veia do próprio coração (seio coronário) — essa costuma ser a etapa que exige mais técnica.
  4. Os eletrodos são conectados ao gerador, que é acomodado em uma “bolsinha” sob a pele.
  5. O dispositivo é testado e programado antes do fechamento.

O tempo do procedimento varia conforme a anatomia de cada paciente. A internação costuma ser curta, geralmente de um a dois dias.

Em alguns casos selecionados, pode ser considerada a estimulação do sistema de condução (conhecida como marcapasso fisiológico) como alternativa ou complemento à ressincronização tradicional. Essa decisão é individualizada.

Recuperação e cuidados após o implante

Nas primeiras semanas, alguns cuidados ajudam na cicatrização e na fixação dos eletrodos:

  • Evitar elevar o braço do lado do implante acima do ombro e carregar peso com ele, conforme orientação médica;
  • Manter o curativo limpo e seco, observando sinais de vermelhidão, calor, secreção ou febre;
  • Retornar às consultas de revisão agendadas;
  • Seguir usando os medicamentos prescritos — o ressincronizador não substitui o tratamento clínico da insuficiência cardíaca, ele o complementa.

Depois do período inicial, a maioria dos pacientes retoma suas atividades habituais de forma gradual.

Acompanhamento do dispositivo

O ressincronizador precisa de revisões periódicas, nas quais o médico verifica bateria, funcionamento dos eletrodos, percentual de estimulação e eventuais arritmias registradas. Muitos aparelhos também permitem monitoramento remoto. Os ajustes de programação são feitos sem necessidade de nova cirurgia.

Quando a bateria se aproxima do fim, apenas o gerador é substituído, em um procedimento mais simples que o implante inicial. Saiba mais sobre esse acompanhamento na página de avaliação de marcapasso e dispositivos.

Quais os benefícios esperados?

Nos pacientes bem indicados, a ressincronização cardíaca pode contribuir para:

  • Melhora da falta de ar e do cansaço;
  • Maior tolerância a atividades físicas;
  • Redução de internações por insuficiência cardíaca;
  • Em muitos casos, melhora da função de bombeamento do coração ao longo dos meses.

É importante ter expectativas realistas: a resposta varia de pessoa para pessoa, e uma parcela dos pacientes apresenta melhora menos evidente. Por isso a seleção cuidadosa e o acompanhamento contínuo fazem tanta diferença.

Quais são os riscos?

Como todo procedimento, o implante tem riscos, que são pouco frequentes quando realizado por equipe experiente. Entre eles: sangramento ou hematoma no local, infecção, deslocamento de eletrodo e, mais raramente, complicações relacionadas ao acesso venoso. Esses pontos são discutidos em detalhe na consulta, para que a decisão seja tomada com segurança e clareza.

Quando procurar um cardiologista

Procure avaliação se você tem insuficiência cardíaca e continua com sintomas apesar do tratamento, ou se recebeu um laudo de eletrocardiograma com bloqueio de ramo esquerdo.

Busque atendimento de urgência em caso de falta de ar intensa ou súbita, dor no peito, desmaio, palpitações acompanhadas de mal-estar ou, se já tiver o dispositivo, choques repetidos.

Cuidados no dia a dia com ressincronizador

  • Informe sempre que tem o dispositivo antes de exames de imagem (especialmente ressonância) e procedimentos;
  • Carregue o cartão de identificação do aparelho;
  • Mantenha o celular a alguns centímetros do gerador (use o ouvido do lado oposto);
  • Siga a dieta com controle de sal e líquidos, pratique atividade física orientada e tome os medicamentos corretamente.

Conclusão

O ressincronizador cardíaco é um tratamento bem estabelecido para pessoas com insuficiência cardíaca e dissincronia elétrica que seguem com sintomas apesar dos medicamentos. Quando bem indicado, pode trazer mais disposição e qualidade de vida, mas a decisão exige avaliação individualizada, com análise cuidadosa de exames e do histórico de cada paciente.

A Dra. Neyle Craveiro é cardiologista e arritmologista em Fortaleza, especialista em estimulação cardíaca artificial, e realiza a avaliação, o implante e o acompanhamento de marcapassos, cardiodesfibriladores e ressincronizadores. Para agendar uma consulta presencial ou por teleconsulta, fale pelo WhatsApp (85) 99146-6133.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica.

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Responsável Técnica: Dra. Neyle Moara Brito Craveiro - Médica Cardiologista: CRM-CE: 8351 | RQE 7234